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abr

Expedição pé vermelho ao topo da África

richards-kilimanjaro

Saindo de Londrina no dia 13 de agosto, carregava comigo toda a bagagem que vinha minunciosamente preparando nos últimos meses. Bagagem essa até mesmo de igual ou maior importância que aquela que a poucos minutos havia despachado no check-in da cia aérea.

Havia dentro dela muitos momentos de preparação física, mental, espiritual e um extra de força e motivação que recebi de todos meus amigos e da minha família. Mesmo assim, dentro do avião a sensação era esquisita. Um mix de medo, tensão e felicidade que a expectativa do que estava por vir causava.

No trecho de Londrina à São Paulo tive a companhia de dois padres e foi realmente uma grande benção para esse começo de viagem.

De São Paulo à Johannesburgo aproveitei que estava sozinho em duas poltronas e dormi por umas três horas. Comi e bebi bem. Cheguei a Johannesburgo, às 07h00 do dia 14 de agosto, horário local. O fuso é de 6+ com relação ao Brasil.

28042014160033Kilimanjaro 13 020No mesmo dia embarquei para Nairobi, mas antes aproveitei e comprei uma head lamp, pratos funcionais e uma máquina digital GOPRO Black, que me presenteou com fotos de tirar o fôlego com a qualidade da imagem. Na chegada a Nairobi – Quênia chovia muito, o aeroporto é extremamente despreparado, pequeno e muito esquisito. Havia tendas montadas para abrigar os passageiros em trânsito, estava lotado, uma “muvuca” mesmo.

Peguei ainda mais um voo para o Aeroporto Kilimanjaro.

Às 14h30 avistei pela primeira vez o Monte Kilimanjaro de dentro do avião. A imagem renovou minha empolgação e o objetivo de realizar a expedição solo no Kili.

Chegando ao aeroporto internacional do Kilimanjaro, percebi que conseguiram extraviar minha mochila, e, mesmo envolvendo-a em filme de PVC, ela chegou toda encharcada e sem meu isolante térmico, um micro-ônibus, que me encaixei lá mesmo, me levou por 30 dólares ao hotel na cidadezinha de Moshi com a companhia de um grupo dos USA que conheci ali por acaso.

Dia 15 de agosto, acordei no hotel com o telefone tocando, uma pessoa do hotel me “convidava”, lá eles fazem tudo e te acompanham para ganhar uma graninha, para ir comprar outro isolante térmico, gás e purificador de água. No entanto encontramos apenas o Purific e consegui alugar o isolante térmico por 10 dólares e nada do gás. Lá não tem nada e nenhuma loja apropriada com equipamentos ou algo de montanhismo.

Resolvi nesse mesmo dia ir para o Kilimanjaro. Paguei 70 dólares para dois africanos do hotel me levarem de carro. Uma hora de estrada passando por vilarejos/aldeias o tempo todo. Uma região realmente muito pobre. No caminho pensava se seria possível entrar no parque sozinho e me preocupava com o gás que faria muita falta, pois não tinha comida suficiente que dispensasse o cozimento.

Todas as minhas expectativas com relação aos custos para ingressar ao parque foram anuladas assim que cheguei, pois pelo que tinha visto em depoimentos e sites sobre o Kili estava tudo confuso ou errado, a realidade era outra. Eu tinha comigo apenas 1000 dólares em espécie e um cartão internacional da AMEX  que não aceitaram para compra do permisso da montanha e depois de muito rolo tive que pagar 740 dólares de taxa do parque, mais 300 dólares para constar no itinerário de uma empresa de expedições, pois é terminantemente proibido entrar na montanha sozinho. Ou seja, só entra no Kili se fizer parte, como cliente, de uma empresa de expedição e fiquei devendo 40 dólares para um “amigo” de Israel, se não teria que ir embora. Entrei no parque às 13h30 e a tensão maior deste momento então finamente passou, pois o que eu mais queria era pisar, “ entrar “na montanha, ali sim me sentiria em casa.

Dessa maneira, tive como companhia durante todos os dias na montanha algumas pessoas que se tornariam meus amigos, Mussa, guia principal, Alin e Cristina, casal da Romênia que contratou a expedição, e Marandu, o guia secundário, mais quatro ajudantes, e eu Richards Moura.

Bora para o primeiro dia da expedição, tivemos que passar por um portal de entrada onde um soldado africano com uma 12 conferia o permisso de entrada, eu com minha mochila pesando uns 35 kg, alguns carregadores estavam levando todo os materiais e equipamentos do casal que só levava uma mochila de ataque. Percurso em mata fechada e árvores grandes que exibiam, de vez em quando, grupos de macacos azuis. Paramos depois de duas horas para comer. O guia trazia consigo um kit de lanche composto por panetone, coxa de frango e suco, e eu com meus mixes de castanhas, barra de cereal, malto, frutas secas e chocolate. Após quatro horas de caminhada tranquila chegamos a Mandara-hut, o primeiro acampamento.

Chegando ao acampamento a primeira surpresa, mesmo não vendo a hora de estrear minha barraca de alta montanha, que ganhei de Milton Ogawa, me deparei com um chalé com beliches e outro chalé enorme que funcionava como restaurante. Eu dava risada achando uma mordomia. Serviram chá, pipoca, bolacha, leite e mais tarde uma sopa com pão e outra janta, uma espécie de hotel mesmo, estava me sentindo constrangido e só comia o que tinha levado, não sabia que podia comer tudo aquilo que era servido de bandeja e em mãos.

28042014160147Kilimanjaro 13 046Dia 16 de agosto acordei com um dia espetacular, sol e temperatura agradável. Durante a noite eu conseguia escutar os bichos em uma floresta próxima. Depois de um café da manhã caprichado, partimos às 08h30 rumo a Horombo longe seis horas dali e 1000 metros para cima (12Km de distância).

No percurso cruzamos com várias pessoas subindo e descendo a montanha, passamos por uma cratera chamada Maundi Crater, e mais adiante a vegetação começava a ficar rasteira. Mais à frente me deparei com uma extensa área queimada, segundo os guias, há três meses uma grande queimada havia devastado a área interrompendo as expedições. Minha mochila agora já estava muito mais leve, pois sabendo do sistema “hoteleiro” do Kilimanjaro, muito dos equipamentos se tornaram dispensáveis, infelizmente ou felizmente, pois não usaria minha barraca nova. Seguimos o percurso sempre com boa hidratação e atento para os sinais da altitude, mantendo o xixi clarinho e me sentindo sempre bem! Chegamos a Horombo e mais uma vez chalés. Fizemos o check-in “obrigatório em todos os acampamentos”, trocamos de roupa, alongamos e chá da tarde com capuccino e chocolate quente que ganhei de meus filhos ainda em Londrina. Neste dia ainda toquei pandeiro e cantei com os guias e pessoas que trabalham na montanha.

Dia 17 de agosto estava frio, por volta de zero graus dentro da cabana e -4 fora. Tomamos café da manhã reforçado, servido na mesa e fui arrumar minha mochila de ataque com: mix de castanhas, barrinhas de cereais, 1,5 l de água e meu pandeiro com a bandeira do Brasil e a logo da R80 Montanhismo e Trekking. Partimos às 09h00 rumo as Zebra Rock (4048 de altitude) para uma caminhada de aclimatação. Encontramos um grupo de Israel e outro da Coreia de quem ficamos amigos, tocamos samba, dançamos coreografia Gangnam Style, foi muito divertido. O coreano com um iPod, eu com o pandeiro e os guias com as rimas do Kilimanjaro. Chegamos com duas horas e voltamos a Horombo, eu na frente de todos, pois minha água tinha acabado, até tentei tomar água de um degelo mas estava suja e chegando de volta ao chalé tive que esperar 30 minutos para beber água pois é essa a recomendação usando o Purific. Ainda bem que tinha água benta que ganhei do Fernando Ferro e da Patricia então tomei 250 ml. Depois chá da tarde com sopa, café, chá e um salgado enorme de legumes, tomei ainda o malto do meu irmão, o Roney. Os guias sempre insistiam bastante para a gente comer de tudo e bastante. O casal da Romênia foi dormir, mas decidi ficar acordado mais um pouco para escrever, sempre bem acompanhado de Deus!

Acordei dia 18 de agosto pronto para a caminhada de seis horas até Kibo, o último acampamento antes do cume. Deste ponto em diante a trilha tem sempre vista para topo da África, vento, frio, sol e mochila pesada. Chegamos bem a Kibo, me preparei e fui me deitar pois nosso plano era fazer o ataque ao cume de madrugada, partindo dali naquele dia mesmo as 0h00. Às 16h00 fui dormir para acordar às 23h00 onde começaria a parte mais difícil da montanha.

Levantamos às 19h00 para comer, senti uma leve dor de cabeça, comi uma barra de cereal energética, tomei água e uma aspirina da Romênia. Deitei novamente e às 22h30 comecei meu ritual de concentração. Esta é uma das fases mais fortes, emocionantes e empolgantes na alta montanha. Ainda deitado começo a escutar as músicas da Família Sara e Tobias, ministério de casais do qual eu e Roberta, minha esposa, fazemos parte. Aos poucos minha “bateria” foi carregando para o máximo de energia, ali relembrei  cada treino, cada esforço, pensei na minha família, na Família R80 e em cada pessoa que me apoiou de uma forma ou de outra. Senti medo, coragem, força, alegria, vontade imensa de viver e de aproveitar a vida. Antes de levantar já estava cantando e dançando…e na barriga uma leve dor que eu não queria pensar. Comi, bebi e partimos!

Começamos o ataque ao cume a meia noite, nós cinco. Senti falta de uma oração em grupo, porém fiz a minha e fiz também pedindo proteção a todos da nossa expedição. O começo tranquilo com a lua cheia, noite perfeita, linda, pouco vento e – 10 graus de temperatura. Continuando a subida pesada à luz da lua, nem usei a head lamp. Estava sentindo muito a dificuldade imposta pela altitude, toda hora tinha que parar, respirar ou tentar respirar para controlar o coração. O dia foi raiando no horizonte e ali a vista era um sonho, percebia o mundo, as nuvens, o sol, a lua, o vento, uma realidade a ver e sentir intensamente.

Quando atingimos Gilman´s Point estava debilitado, porém já avistava o topo da África há mais ou menos uma hora dali num percurso menos pesado, mas há 5681 metros de altitude, onde até descer é difícil. Passamos por Stella Point há 5739m já próximo ao topo da África. Pessoas sendo carregadas, passando mal. Seguimos com a emoção e o coração já entrando em êxtase de adrenalina. Mesmo me arrastando sabia que iria chegar, conquistar os 5895 metros, conseguir alcançar o topo do monte Kilimanjaro.

28042014160232topo kili R80A sensação de poder e de realização ia recarregando minhas forças. Muito estranha a mudança de debilitado, acabado, entregue à altitude, para poderoso, extremamente forte, novo, feliz, realizado por tudo que passei. Lembrava intensamente de cada pessoa, cada palavra ou ato de apoio, agradecia a Deus sentindo sua presença dentro de mim. Chorava, gritava, sorria, dava gargalhadas, fotos, vídeos. Agradeci aos companheiros Mussa, Marandu, Alin, Cristina e Deus!

Estar no topo talvez não seja tão importante, mas a sensação de conquista é inexplicável. Agradecimento em especial a minha querida esposa que está comigo em tudo e em todas. Aos meus filhos, Rebeca e Renan que tudo acontece por eles, e que, se preciso, desistiria por eles! Por toda a Familia R e R80. Clínica de Fisioterapia Equilíbrio, por me consertar quando preciso e pelos treinos de Pilates. Aos amigos. Ao Valdir Vittor, pelas sessões de Massoterapia, à Glaucia e a Londrisoft, pelo amuleto que me deu sorte para alcançar o meu segundo topo nas maiores montanhas do mundo.

“Há um chamado vindo da montanha a todos nós para louvar o Senhor. Há um chamado vindo da montanha a todos nós para exaltar o Senhor. Cantem os anjos a glória, cantem os anjos conosco, cantemos juntos ao Senhor. A honra, a glória, a força e o poder.” Eu agradeço Teu chamado, Senhor!

Estava no meio do caminho, então muito iria acontecer, até mesmo o mais difícil. Demos início a descida, parecia que eu tinha dormido a noite toda. Estava novo e feliz. Fiquei ainda mais feliz quando lá em cima, próximo ao topo, consegui ligar para a mulher mais linda do mundo, minha esposa. Escutar a voz dela foi a melhor coisa nos últimos oito dias que estive na expedição e dar e receber a notícia de que tudo estava bem me deixou mais feliz ainda.

Chegamos a Kibo, acampamento superior, fui recebido por Tanzanianos com abraços e sorrisos.

Descansei por uma hora para encarar três horas de montanha abaixo onde passaria a noite e no outro dia descer o restante da montanha. Foi muito alegre passar por todos os acampamentos de novo, todos vinham cumprimentar o brasileiro do pandeiro, pois por onde passava, sempre estava com a bandeira e o pandeiro do Brasil. Teve samba e alegria todos os dias no Kilimanjaro, inclusive no topo…e foi um show!!

Antes do tão esperado retorno para casa, vivenciei um problema bastante importante de se ressaltar neste relato. O cartão que fui orientado a adquirir para essa viagem, um American Express, não foi aceito em nenhuma cidade próxima ao Kilimanjaro. Isso me causou bastante transtorno na minha volta ao Brasil. Ainda no Brasil, me programei de acordo com a orientação do banco da minha cidade. Levei dinheiro apenas para emergências e meu cartão AMEX para saque em qualquer cidade africana. O que não aconteceu. A taxa da montanha levou todo o dinheiro que tinha, e fiquei apenas com um cartão que ninguém conhecia.

Resumindo, fiquei 24 horas hospedado no aeroporto, sem banho, sem comida, dependendo da boa vontade dos atendentes em me dar abrigo e me ajudar a resolver os transtornos de antecipação dos meus voos, afinal saí da montanha na terça-feira e meu voo estava marcado para o sábado.

Não tive condição de fazer um passeio ou ao menos descansar uma noite no hotel. Graças a Deus consegui uma carona até o aeroporto onde teria que ficar até sábado se não fosse minha esposa conseguir antecipar meu voo chegando a Londrina na quinta à noite.

Graças a Deus momentos excelentes, expedição fantástica ao topo da África e também momentos difíceis que possibilitaram crescimento e aprendizado!

Do topo da África dei uma “olhada” para o Monte Elbrus, topo da Europa, onde pretendo me aventurar logo, logo, em busca de novas conquistas e histórias…Agradeço a Deus em especial.

Obrigado.

 

Richards Moura – R80 Montanhismo e Trekking.