23
maio

Expedição Pé vermelho no topo da Europa – Monte Elbrus

Mount_Elbrus_May_2008

“Do topo da África dei uma ‘olhada’ para o Monte Elbrus, topo da Europa, onde pretendo me aventurar logo, logo, em busca de novas conquistas e histórias…” Em agosto de 2013 já sabia qual era meu próximo desafio!!!

Enfim chegou o ano da expedição, após meses de preparação e organização, no início de junho de 2015 era a hora de encarar a maior montanha da Europa, o Monte Elbrus que tem 5642 metros de altitude e fica na cordilheira do Cáucaso, na Rússia, perto da fronteira com a Geórgia.

Antes da viagem o receio era com relação à expedição em geral e um certo medo ou preocupação maior com o que eu poderia passar de dificuldades quanto à diferença cultural na Rússia.

Optei por uma alternativa de viagem onde o objetivo era único, chegar e colocar os planos da expedição em prática e voltar  para minha cidade e minha família; Londrina dia 07/06, para São Paulo, em seguida para Londres, então Moscou e Mineralnye Vody, para pegar um táxi que eu já tinha pré-reservado para ir para Terskol, cidade turística e base do Monte Elbrus, onde cheguei na madrugada do dia nove, próximo das duas da manhã do horário local!

Ao chegar ao hotel, uma recepcionista me atendeu super bem, podia escolher inglês ou espanhol na comunicação com ela. Acompanhou-me até o quarto e em seguida levou-me para o restaurante do hotel para jantar. A princípio, eu que estava com receio, já passei a achar boa demais aquela recepção! Ao chegar no restaurante encontrei um senhor montanhista americano com seu guia local e uma garçonete, estavam tomando vodka e se divertindo! Vieram me cumprimentar, dar as boas-vindas, abraçar, convidar para me juntar a eles. Eu estava desconfiado de tanto calor humano e boa receptividade na Rússia! Jantei bem, fiquei um pouco com eles tomando bastante água e subi para o meu quarto para descansar e pensar no próximo dia, que poderia ser o primeiro dia na montanha!

Dia 09, em Terskol, sai caminhando à procura de uma casa de câmbio e uma loja de equipamentos de montanhismo, onde precisava alugar e comprar algumas coisas. Logo achei e fui bem recebido em ambos lugares! Equipamentos ok, dia ensolarado e bom…resolvi no mesmo dia dar início a expedição! Fui de táxi (pois a mochila estava com cerca de 35 kg) até a secretaria de turismo para certificar minha entrada na montanha naquele dia e assinar o termo de responsabilidade! Ali as informações sobre a situação climática não foram boas, mas estava me sentindo bem, confiante e dei sequência ao meu roteiro planejado!!!

A maioria dos montanhistas começa esta empreitada de subida usando o auxílio de um bondinho, que leva o montanhista sem desgaste físico até dois acampamentos acima.

Optei desde os estudos em fazer a subida no estilo solo e ali sem auxílio dos bondinhos, com intenção de aproveitar e otimizar cada dia, pensando em ter um bom trabalho de aclimatação e como um bom educador físico subir com minhas próprias pernas e esforço!!! Subindo desde Terskol na pernada, ainda sem dificuldades técnicas, somente muitas pedras e um tempo fechado com cara que iria cair uma boa chuva logo, logo.

Com cerca de cinco horas de subida, com direito a chuva de pedra e neve, cheguei ao acampamento 1, estação de troca do bondinho ou ski-lift, onde tem uma espécie de pousada refúgio, entrei na estação e fiquei ali sozinho, para trocar rapidamente a roupa molhada e resolver o que eu faria pois já começava a anoitecer. Resolvi pernoitar no abrigo que estava vazio, havia somente duas simpáticas e engraçadas mulheres que trabalhavam lá! Jantei com a companhia delas, que tomavam vodka sem parar e eu sempre me hidratando super bem, pensando em uma boa aclimatação na montanha! Ao amanhecer uma vista fantástica, um dia maravilhoso vinha pela frente…

Dia 10/06 e segundo dia na montanha, o objetivo era subir até Barril Hut, a partir dali era só gelo e neve. Por um momento me vi sozinho, isolado e com as duas pernas por completo abaixo da neve, com dificuldades para me deslocar na neve fofa e com a mochila pesada, levei cerca de oito horas para chegar ao acampamento dois. Encontrei um grupo do exército russo que também tentava chegar ao topo da montanha,  cheguei bem, um pouco cansado, já começando a sentir o frio intenso e a altitude! Descanso, boa alimentação e hidratação eram o meu foco até o próximo dia!

Dia 11/06 e terceiro dia na montanha, muito frio e uma subida forte para chegar ao acampamento três. Dei início a subida próximo das 10h00 da manhã, pois sabia que com cerca de seis horas chegaria ao meu destino naquele dia. Deixei algumas coisas que não me serviriam mais no decorrer dos próximos dias, um par de botas e algumas roupas no acampamento dois, pois ficaria um pouco mais leve e qualquer 100 g ali podem fazer uma boa diferença! Muitos a partir dali sobem de SnowCat uma espécie de carro que anda na neve sem dificuldades. Mas este não estava em minha programação, além do que teria que desembolsar cerca de 1000 euros para contratar esta opção, subindo passo a passo (Poli Poli, como aprendi no Kilimanjaro), cheguei ao meu destino. Deixei meus equipamentos, descansei, me alimentei bem e fui fazer uma caminhada leve montanha acima, pensando em um bom trabalho de aclimatação. Voltando logo para o abrigo para tentar dormir, as dificuldades para disso já eram esperadas, devido ao frio e principalmente a altitude e seus males.

Dia 12/06 e quarto dia na montanha. A proposta para este dia era fazer um trabalho de aclimatação avançado ou descanso caso meu organismo não estivesse reagindo bem à altitude. Como estava bem resolvi ir de Priutt Hut até Pastukov Rocks a 4550m de altitude, fui com pouco peso, tentando me hidratar e curtir aquele dia que apesar de nevar e de estar fechado, trouxe paisagens literalmente de tirar o fôlego.

Já começava a pensar no dia seguinte e na possível hipótese de tentativa de cume, pois uma janela de tempo bom estava para abrir  e muitos montanhistas que estavam há bastante tempo ali esperavam ansiosos por este momento!!!

Dia 13/06 quinto dia na montanha e dia do cume!!!Organizei no dia anterior minha mochila de ataque, água, roupas, equipamentos (grampon, head lamp, cadeirinha, mosquetão, corda, piolet, óculos, bastão, câmeras) e próximo às 2h00 da manhã dei início a subida, caminhada noturna longa até Pastukov Rocks, onde começou a amanhecer com um frio próximo a 15 graus negativos. Uma paisagem única, que compensava todo o esforço e a dedicação até ali. Pacientemente, cheguei a pensar que já teria valido a pena todo o empenho e a preparação! Porém sou brasileiro e tenho uma força a mais, seguindo rumo ao cume, muitas dificuldades estavam por vir, pois sabia que o pior sempre está próximo ao topo, e eu estava longe ainda. Muita neve e muito gelo dificultavam ainda mais o deslocamento, passei a não apreciar mais a beleza, passei a pensar seriamente em voltar atrás. Sentei e resolvi descansar e tentar comer e  me hidratar melhor. Ali precisava de uma força que não tinha, pois a próxima subida era muito difícil e em alguns momentos poderia ser mortal também. Foi ali que peguei meu iPod com minhas músicas da Sara e Tobias e algumas cartas para eu ler e buscar forças vindas da família e  dos amigos. Essas cartas me dariam ânimo para continuar tentando, independente do cansaço, do frio e das dificuldades que passavam em minha cabeça! Uma carta em especial ficou marcada em minha memória, era de minha sobrinha, e entre palavras que choro todas as vezes em que a releio, tinham 10 reais, que ela tirou de suas economias e me mandou pensando em me ajudar! Ali naquele momento veio uma carga grande de adrenalina, uma força que possibilitou que eu levantasse e continuasse em busca de meu objetivo. Chegar ao topo do Elbrus e concluir a expedição era muito importante, porém minha maior meta sempre foi a de ir para a expedição e voltar melhor para minha casa e minha família! Este é o lema da R80 Montanhismo e Trekking.

Quando passei pela parte mais inclinada e difícil, de onde muitos montanhistas resolviam voltar, comecei a ficar mais forte e com a convicção de que a bandeira do Brasil e de minha querida cidade Londrina iriam ser hasteadas no topo da maior montanha da Europa, em uma das maiores montanhas do mundo. E que Deus realmente, independente do resultado final, se faz presente em todos os momentos em nossas vidas!!! Vitória, alegria, gratidão e felicidade eram nitidamente exaladas por gritos, lágrimas e gargalhadas.

A sensação de poder e de conquista me fazia pensar em todas as pessoas que me ajudaram, minha família,  meus atletas da R80 Corrida e Caminhada, todas as pessoas que se aventuram com a R80 Montanhismo e Trekking e muito de meus patrocinadores Belagrícola, Clínica Equilíbrio, Londrisoft, Rossian e Snake, Vocês, além de possibilidades, me deram forças e posso dizer que conseguimos juntos sim!!!

Para fechar com chave de ouro, consegui ainda no mesmo dia do cume descer a montanha toda e chegar ao hotel para tomar um bom banho e sair para comer!!! Minha esposa querida conseguiu mudar meus voos de retorno e tive uma chegada antecipada em minha casa, para abraçar meus filhos e minha amada mulher!!!

A Deus minha gratidão maior. E ao Mont McKinley um olhar de que em breve estarei aos seus pés e quem sabe teremos um bom relacionamento homem/montanha e estará por completo sob meus “pés vermelhos”!!!

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